Pular para o conteúdo
3mais
Como comunicar saúde da mulher sem parecer constrangedor (nem clínico demais)

Como comunicar saúde da mulher sem parecer constrangedor (nem clínico demais)

Gui Loureiro

Gui Loureiro

14 de jul. de 2026 · 5 min de leitura

Resumo rápido

  • O mercado de femtech no Brasil já vale cerca de US$ 5,8 bilhões (Frost & Sullivan), mas só 23 startups estão mapeadas no setor — sinal de categoria travada por tabu, não por falta de demanda (Distrito, via Inside Healthtech Report).
  • A PlenaPausa virou a 'Dr. Consulta da menopausa' ao trocar jargão médico por linguagem acessível: hoje soma mais de 17 mil mulheres avaliadas e expandiu para nutrição por assinatura (startups.com.br).
  • O app Raquel Menopausa passa de 60 mil downloads e cerca de 40 mil acessos por dia comunicando a IA como 'treinada só em pesquisa científica' — confiança pela precisão, não pelo sensacionalismo (startups.com.br).
  • A Theia captou R$ 30 milhões tratando maternidade como cuidado, não como protocolo clínico frio, e hoje atende beneficiárias de planos como o Bradesco Saúde (Exame).
  • O ponto comum entre os casos que funcionam não é eufemismo nem jargão: é nomear o problema com precisão e tratar a mulher como interlocutora capaz de entender o próprio corpo.

Toda marca de femtech já teve essa reunião. Alguém propõe a palavra "menstruação" no roteiro do anúncio e o time trava. Vira "aquele período do mês". Vira ícone de gota vermelha. Vira qualquer coisa, menos a palavra que a cliente já usa em voz alta com a amiga no grupo de WhatsApp. O medo de constranger é legítimo — ninguém quer o comentário ofendido, o print que viraliza errado. Mas esse medo, sozinho, trava o marketing antes de ele sequer chegar na venda.

O mercado de saúde da mulher no Brasil já vale cerca de US$ 5,8 bilhões, segundo pesquisa da consultoria Frost & Sullivan citada pelo hub de inovação Distrito. Do outro lado dessa conta, o Inside Healthtech Report mapeava, na mesma reportagem, apenas 23 startups no país dedicadas à saúde e ao bem-estar da mulher. Um mercado bilionário atendido por um punhado de empresas não é sinal de nicho pequeno, é sinal de categoria emperrada. E a explicação mais simples pra esse gargalo é a mais desconfortável: falar de menstruação, libido ou menopausa ainda assusta mais gente de marketing do que devia.

US$ 5,8 bimercado potencial de femtech no Brasil, atendido por apenas 23 startups mapeadasFrost & Sullivan / Inside Healthtech Report, via Distrito

Esse travamento tem uma lógica interna, e ela é sempre a mesma: quem decide o orçamento de mídia numa marca de saúde da mulher tenta se proteger de dois riscos ao mesmo tempo, o de ofender e o de parecer amador. Na tentativa de fugir dos dois, a marca acaba escolhendo não dizer nada com clareza. E essa escolha carrega o terceiro risco, o mais caro: o de não vender.

A PlenaPausa decidiu virar, nas palavras das próprias fundadoras, a "Dr. Consulta da menopausa": uma plataforma que junta vídeo educativo, avaliação, aulas ao vivo e acompanhamento nutricional, falando de fogacho, libido e sono do jeito que uma amiga médica falaria, não do jeito que uma bula fala. O resultado está em número: mais de 17 mil mulheres já passaram pela avaliação da empresa, uma base que, segundo reportagem do site Startups, virou o maior estudo já feito sobre o climatério na América Latina (startups.com.br).

O Raquel Menopausa foi na direção oposta do sensacionalismo, sem abandonar a precisão. O app usa inteligência artificial "treinada só em pesquisa científica" pra responder dúvida de sintoma e sinalizar quando não sabe a resposta, em vez de arriscar um palpite. A proposta que vende ali não é a novidade da IA, é a promessa de não inventar. Isso rendeu mais de 60 mil downloads e cerca de 40 mil acessos por dia, segundo o site Startups.

A Theia aplicou a mesma lógica na maternidade: tratar gravidez e parto como experiência de cuidado, não como protocolo hospitalar frio. A healthtech captou R$ 30 milhões dos fundos 8VC e Canaan e hoje atende beneficiárias de planos de saúde como o Bradesco, segundo reportagem da Exame. É a prova de que linguagem humana e parceria com operadora grande não são coisas incompatíveis.

O eufemismo tenta proteger a marca do constrangimento e acaba protegendo a marca da própria clareza: quem lê "aquele período do mês" não sabe se o produto é pra cólica, pra fluxo intenso ou pra troca de absorvente. A busca da usuária no Google já usa a palavra direta: "cólica menstrual forte", "sintoma de menopausa", "dor na relação depois do parto". Um anúncio que evita essas palavras simplesmente não aparece pra quem procura.

O jargão clínico erra pro outro lado: fala com precisão, mas fala de longe. "Disfunção do assoalho pélvico" é tecnicamente correto e afasta quem só quer entender por que sente dor. PlenaPausa, Raquel Menopausa e Theia miram o meio do caminho: usam a palavra que a mulher já usa e complementam com a explicação que ela não tinha. É comunicação de saúde que soa como conversa entre pessoas que se respeitam, não como anúncio com medo da própria audiência.

  1. Nomeie o sintoma, não a categoria. "Cólica que atrapalha o trabalho" comunica mais do que "conforto no período menstrual". Precisão vende; vaguidão só evita a reunião desconfortável.

  2. Mostre quem valida a informação. Raquel Menopausa vende confiança dizendo que a IA só responde com base em pesquisa científica. Sua marca também pode citar quem assina o conteúdo, médica, nutricionista, protocolo clínico, em vez de deixar a informação sem nome por trás.

  3. Publique o número que prova o cuidado, não o número de vaidade. PlenaPausa fala em 17 mil mulheres avaliadas, não em "milhares de vidas transformadas". Dado específico é verificável; adjetivo genérico não convence ninguém que já foi mal atendida antes.

  4. Escreva pra quem já vive o sintoma, não pra quem pode se ofender com ele. A audiência que decide comprar não é a pessoa hipotética que reclama no comentário. É a mulher que está com a dor agora e quer saber se o produto resolve.

  5. Teste a frase em voz alta antes de aprovar a campanha. Se soa constrangedor falado, o problema é o texto. Se soa clínico e distante, o problema também é o texto. O alvo é soar como a conversa que já acontece entre amigas, com a autoridade de quem sabe do que fala.

Trabalho com marca em terreno sensível há 25 anos: conta pública, crise, causa social. O padrão se repete sempre: quem trata o assunto difícil com respeito e clareza ganha a atenção que quem foge do assunto nunca consegue. Saúde da mulher não foge dessa regra. Hoje é um dos mercados brasileiros onde falar direito ainda é vantagem competitiva, porque a maioria das marcas segue com medo de falar.

Sua marca de femtech ou saúde da mulher precisa de linguagem que converte sem constranger. Fale com a gente.

Falar com o time da 3mais

Fontes e referências

  • Distrito (2026) — Femtechs podem movimentar US$ 50 bilhões no mundo até 2025 (dados: Frost & Sullivan; Inside Healthtech Report) — distrito.me/blog/femtech
  • Startups (startups.com.br) — Plenapausa amplia modelo para ser Dr. Consulta da menopausa
  • Startups (startups.com.br) — Empreendedora cria startup de saúde feminina para apoiar mulheres na menopausa (Raquel Menopausa)
  • Exame (2022) — Theia capta R$ 30 milhões para popularizar o parto humanizado
  • Exame — Startup de saúde humanizada para grávidas começa a atender beneficiárias do Bradesco Saúde
Gui Loureiro

Autoria

Gui Loureiro

Diretor de Estratégia · 3mais

Especialista em comunicação integrada e marketing digital há mais de 20 anos. Estratégia phygital, mídia, automação e IA.

LinkedIn →

Perguntas frequentes

Por que tanta marca de femtech trava antes de comunicar?

Porque o mercado é grande, mas a coragem de falar dele é pequena. A conta disso aparece no número de empresas que existem pra atender a demanda.

O que os casos que funcionam têm em comum?

Nenhum dos três evita a palavra difícil. Todos os três trocam o vocabulário de constrangimento pelo vocabulário de cuidado, e mostram resultado em número, não em promessa.

Eufemismo, jargão clínico ou outra coisa: o que realmente converte?

Nenhum dos dois extremos. O que converte é chamar o sintoma pelo nome e explicar o que ele significa, na mesma frase.

Como aplicar isso na comunicação da sua marca, na prática?

Trocando a régua de "isso pode ofender alguém" pela régua de "isso ajuda quem precisa entender o próprio corpo".

Assine nossa Newsletter